Join for FREE | Take the Tour Lost Password?
[x]

deviantART

 


Uma manhã sem muito sol, quase tomada por brisas que com alegria tocavam os lugares que precisavam de seu toque de frescor. Entre tantas pessoas indo e vindo pela calçada, carros passando como se não se importassem com o que há ao redor, um Garoto se destacava, bufando de cansaço da caminhada, mesmo que curta e carregando à mãos um relógio de bolso, aparentemente muito antigo e bonito.

Ele o levava com tristesa, segurando firme nas mãos, pedindo para si mesmo por ajuda, não queria deixar que aquilo acontecesse, o relógio óbviamente significava muito para ele. E assim ele notou ao mesmo tempo que estranhou a presença de um homem marcado pelo tempo, raquítico, coberto de roupas quentes e de cores sóbrias, com uma boina cinza, óculos largos e olhar ao mesmo tempo distante e atento, observando um Beija-Flor bebericar nas flores de uma Figueira. Toda essa cena parecia bucólica e surreal para o Menino, em parte pelo fato da banca, se é que podia ser chamada assim, do Velho parecia estar ali apenas para ele ter um lugar onde apoiar os braços. Não onde trabalhar.

Mas obstante à isso, o Relojoeiro, as duas cadeiras e a bancada pareciam pertencer a aquele lugar, como se lá tivessem nascido, como se de lá nunca tivessem saído.

O Garoto percebeu que o olhar do Velho mudou sua atenção para ele, como se inquisitivamente esperasse alguma reação do invasor de seu espaço imaculado.

O Jovem tímidamente estendeu os braços com o relógio e o colocando em cima da bancada sendo acompanhado pelos olhos curiosos e ao mesmo tempo que cheios de respostas. Na verdade não sabia que o homem podia consertar relógios, mas por algum motivo sabia que ele podia resolver o seu problema. Todo o processo foi confuso, o Relojoeiro desapoiou os braços da bancada e os revelou trêmulos, quase dignos de pena. Mas assim que os colocou no relógio, tornaram-se hábeis e capazes, rapidamente desmontando peça por peça sem sequer dar a entender que deixaria de doar atenção para alguma delas. Entre isso tudo, fez uma breve mesura para que o Garoto se sentasse na cadeira de frente para a dele

O Relojoeiro ajeitou os óculos, não permitiu que o menino dissesse qual era o defeito e após dispôr as peças de forma ordenada sobre a mesa apenas as observou, como se tentasse lê-las, entendê-las, conversar com elas. Quando de repente o Velho começou a movimentá-las, como se as regesse e encaixava, transformando aquele amontoado de engrenagens e metais em algo.

O Menino apenas observava, intrigado e maravilhado com o que aos olhos dele parecia mágica, transformar aquele monte de nada em alguma coisa, misturando a curiosidade que todo o Garoto tem por aparelhos com o fascínio que as habilidades de outros podem prover.

Nesse meio tempo, eles conversaram sobre tudo o que era possível para dois desconhecidos conversarem nesse meio-tempo. O Menino soube que o Relojoeiro morava por ali haviam 20 anos, quase o dobro do que o Jovem tinha de vida, que ele teve uma loja de relógios, o quanto ele gostava do tempo e o quanto à ele se dedicava. Descobriu que o Senhor aprendeu o ofício com o pai, que por sua vez aprendeu com o tio, que aprendeu com o pai.

O Menino contou que nasceu no lugar, as matérias que mais gostava na escola, que aquele relógio pertenceu a seu falecido pai e lhe foi dado como uma lembrança e o quão importante é que continue funcionando, porque a parada do relógio também significava uma segunda morte do pai além de ele ter mais de 100 anos, um período de tempo que o Garoto conseguia mensurar, mas era jovem demais para entender.

O Relojoeiro vez ou outra interrompia para mostrar os meandros do funcionamento daquela "obra de arte" ele dizia ao se referir ao relógio, até que em um momento a conversa parou bruscamente. Não por uma razão grave, apenas por não haver mais assunto.

E entre os sons das peças, parafusos e engrenagens se unindo o menino desviou sua atenção para a Figueira, forte e frondosa como qualquer árvore em flores deveria ser, novamente sendo visitada pelo Beija-Flor que dessa vez parecia não querer mais provar das flores, ele estava mais interessado em impedir que uma Borboleta ali o fizesse. Consecutivamente atrapalhando-a ao se alimentar, o que acabou resultando em algo que se assemelhava à uma dança e que prendia a atenção do Menino com facilidade, arrancando dele risadas.

Depois de um tempo, que o Garoto não soube direito calcular quanto, ouve-se o ruído do relógio sobre a mesa, como se fosse uma forma do Velho avisá-lo de que o trabalho acabou. Ele então testou o relógio e viu que funcionava perfeitamente! Quase como se tivesse sido fabricado lá mesmo! O menino ficou maravilhado, perguntava ao Senhor como ele havia descoberto o defeito, como ele conseguiu consertar o relógio sem informação nenhuma a respeito dele?

O Relojoeiro foi muito calmo e cuidadoso com as palavras, tentou responder todas as indagações do garoto de forma que alguém tão jovem, e não familiarizado com a arte da relojoaria entendesse. Ele disse que as engrenagens, os ponteiros, o corpo e até os números falavam, eles não podiam apenas indicar que horas eram, mas também o que tem de errado com eles. Tudo o que precisava fazer era separá-los e conversar com cada um individualmente.

Satisfeito com a resposta e alarmado por estar atrasado para o almoço, o Menino quase salta da cadeira em que estava sentado tamanha sua alegria, por um momento esquecendo que deveria pagar pelo seviço. Ele que antes estava tão preocupado em perder o relógio do pai já que nem mesmo ele tinha certeza absoluta de como o aparelho quebrara, afinal, a coisa simplesmente parou de funcionar sem mais nem menos.

Ele pagou o combinado e saiu de lá tão eufórico que esquecera de agradecer e não percebeu o sorriso de satisfação do Velho, por um motivo não identificável. Enquanto via a alegria da Criança, ajeitou seus óculos e analisou suas ferramentas.

O Menino chegu em casa quase explodindo de alegria, mostrou o relógio para a Mãe que se surpreendeu ao vê-lo funcionando, perguntou ao Filho onde conseguiu alguém para consertá-lo, o Garoto então contou toda a história de como estava triste por correr o risco de perder o relógio e como quase que por mágica encontrou o velho Relojoeiro. Descreveu ele e como o mesmo arrumou o relógio.

A Mãe estranhou, nunca tinha visto ou ouvido falar do Velho, e morava ali à muito mais que 20 anos. Disse que não era possível, que o único relojoeiro na região ficava muito mais longe do que isso e que ele jamais consertaria um relógio tão antigo de uma hora para outra em uma bancada embaixo de uma árvore com algumas poucas ferramentas.

O Garoto se indignou, discutiu com a mãe, alegava que tinha visto, e que não existia prova maior do que o relógio funcionando como se fosse novo! Disse que voltaria lá, agradeceria o Relojoeiro como tinha esquecido de fazer e o traria para mostrar à mãe que não estava mentindo.

Não muito depois, o menino estava de volta ao lugar onde deveria estar o Relojoeiro, mas ele não mais estava lá. Nem a Figueira. Nem o Beija-Flor. Nem a Borboleta. Não haviam bancada ou cadeiras, mal havia grama. Era um monte de nada tão melancólico que não era a toa que ninguém passava muito tempo prestando atenção. Aquilo era triste.

O lugar não era nem metade do que o Menino havia visto, do que havia vivido. Era como se nunca estivesse lá, mas ele sabia que tinha acontecido.

Era como sua mãe tinha dito, mas não era como ele viveu.
Creative Commons License
Some rights reserved. This work is licensed under a
Creative Commons Attribution-Noncommercial-No Derivative Works 3.0 License.
:iconmarcoodruida:

Author's Comments

...

Comments


love 0 0 joy 0 0 wow 0 0 mad 0 0 sad 0 0 fear 0 0 neutral 0 0
:iconpryestrela:
comecei a ler e gostei
como vou estudar agora salvei para ler mais tade
parabens

--
Priscilla Estrela :star:

:bulletpink: Faça tudo valer a pena,dizer eu te amo não devia ser um problema.. ;P
:iconmarcoodruida:
Valeu! =D

--
Blog: [link]

"Parte da diversão de estar vivo é saber que você está irritando alguém" - Matt Groening

"A grande mágoa da minha vida é nunca ter feito quadrinhos" - Pablo Picasso
:iconpryestrela:
por nada :D

--
Priscilla Estrela :star:

:bulletpink: Faça tudo valer a pena,dizer eu te amo não devia ser um problema.. ;P

Details

April 16
8.3 KB

Statistics

3
1 [who?]
37 (0 today)
0 (0 today)

Site Map